Educadores X Resistência
Como explicar o fato de que após o surgimento de computadores, engenheiros e cientistas imediatamente identificaram sua utilidade e começarem a usá-los, enquanto a maior parte da classe profissional de professores ainda questiona a validade da presença da informática na aprendizagem? Acredito que existam pelo menos três possíveis explicações para essa diferença de posicionamento, de atitude, de visão.
A primeira está relacionada à forma, através da qual, as pessoas aprenderam a aprender no passado. Vários estudos publicados nas últimas décadas sobre a questão da aquisição de conhecimento têm examinado o exercício de memória. Eles distinguem dois tipos de memória: memória taxonômica e memória local ou natural.
A primeira é caracterizada pela aquisição de conhecimento através de memorização de fatos e categorias pré-estabelecidas; a motivação para a aprendizagem é externa ao aprendiz (ele tenta satisfazer os seus pais, o seu professor ou o "sistema"); os fatos armazenados estão isolados uns dos outros; uma boa parte do que for armazenado não tem utilidade imediata; e esse tipo de memória é resistente a mudanças posteriores.
Por outro lado, a memória local é caracterizada pela qualidade de ser espacial, isto é, através da criação de "mapas mentais" rapidamente formados pelo indivíduo e com capacidade virtualmente ilimitada; a motivação para a aprendizagem é interna ao aluno, surgindo de sua curiosidade e expectativas; todos os itens armazenados têm inter-relacionamento contextual; e os "mapas" são continuamente atualizados, na medida em que novas experiências e aprendizagem surgem.
Assim, quem aprendeu através de uma abordagem didática tendo como princípio que a "formação" se concluiu quando o futuro profissional está suficientemente estocado com um corpo de conhecimento decorado, pronto para ser transmitido para futuras gerações, tende a resistir a novas informações, especialmente aquelas que obrigam o abandono de antigas categorias e fatos já memorizados.
Quem aprendeu através de outra abordagem didática que, em vez de um corpo fixo de conhecimento memorizado, acredita que o futuro profissional precisa saber como identificar e solucionar problemas, não resiste a novas informações, e sim, procura a permanente criação de novas categorias de idéias e fatos.
A segunda possibilidade para a explicação é aquilo que alguns chamam de "princípio de investimento": quando alguém já investiu bastante tempo (e talvez dinheiro) num determinado caminho ou carreira, sendo bem sucedido até então, torna-se difícil aceitar novas propostas que invalidem as práticas do passado e exijam um novo investimento na aprendizagem, adotando estratégias e táticas recentes.
A terceira explicação reside na questão da existência de um eixo com duas extremidades, que pode ser achado em todas as culturas: pragmatismo de um lado e reflexão do outro. Indivíduos, organizações e classes de profissionais eventualmente acham o seu lugar em algum ponto ao longo deste eixo, tomando suas decisões e agindo diariamente, segundo a posição em que se acomodaram.
É uma tradição nas instituições brasileiras que preparam professores (do primeiro grau à universidade) ensinar que a reflexão é superior ao pragmatismo, isto é, que a teorização é superior à prática, que a compreensão profunda do papel da educação e do educador na sociedade está acima de uma visão pragmática e de experiências pessoais relativas aos acontecimentos dentro de uma sala de aula.
Se não, como explicar o fato de que a disciplina de Tecnologia Educacional ser obrigatória, duas décadas atrás, na formação de todo professor, e hoje inexistir? Como explicar o fato de não haver produção significativa de teses de pós-graduação em Tecnologia Educacional no país, havendo apenas uma revista especializada no assunto, embora mundialmente a tecnologia esteja revolucionando o modo como às pessoas aprendem e trabalham? Como explicar o fato de que as faculdades de educação ainda acham um luxo desnecessário levar todos os seus alunos a incorporar computadores e redes eletrônicas ao seu dia a dia?
Esta semana mesmo ouvi uma renomada
educadora, membro do Conselho Nacional de Educação, falar sobre tecnologia quanto ao seu papel de apoio à educação, como sendo "um problema", porque a questão principal era a necessidade de averiguar o seu uso apropriado! Não há dúvida de que a reflexão é importante e obrigatória; mas quando serve para mascarar a inércia, o imobilismo, o medo de substituir idéias, e a resistência ao novo, então é destrutiva.
O argumento da peça Hamlet, de Shakespeare, ilustra bem o caso. Como excelente aluno de pós-graduação, Hamlet sabia que o bom investigador deve acumular uma preponderância de evidências e refletir bastante antes de tirar uma conclusão e agir. Ele de fato coleciona toda a evidência necessária para concluir que seu pai foi assassinado por Cláudio, mas reflete demais antes de agir baseado nessa informação, e acaba sendo morto. O seu excesso de reflexão, isto é, o seu não-pragmatismo, sua não-ação, provoca o seu fim trágico.
Não se trata de pregar apocalipses e fins trágicos. Porém, se a formação de professores no Brasil daqui em diante não se modificar, não se modernizar, incluindo alfabetização tecnológica para todos, não será a sociedade brasileira que sofrerá (porque sem dúvida um outro setor da sociedade assumirá o papel de oferecer uma educação contemporânea). Mas quem não se adaptar aos novos tempos provavelmente ficará sem alunos.
Bons Ventos!!
Família Tiscornia Selaibe